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18 fevereiro, 2023

A diversidade e as crianças

Tanto as crianças quanto os adultos às vezes precisam experienciar situações para aprender com elas. Assim, uma maneira que pode ser eficiente para educar quanto ao respeito pela diversidade é a exposição a situações que podem ser reais, como a convivência da criança com pessoas diferentes dela, ou fictícias, como ao assistir a peças teatrais ou filmes que retratem diferenças.

A imagem, a cor, o cabelo e a classe social são elementos que definem nas crianças os sinais de pertencimento a um universo específico. Quando elas são apresentadas a figuras semelhantes ou que defendem a igualdade, tendem a fortalecer sua autoestima de uma maneira equilibrada.



09 fevereiro, 2023

A Importância da rotina na vida da criança

A rotina diária nada mais é do que colocar o planejamento em prática. Ela vai possibilitar que os pequenos se orientem na relação tempo-espaço e se desenvolvam. A rotina é um instrumento construtivo, pois permite que os filhos estruturem sua independência e autonomia, além de estimular a socialização.

Ela implica regras que estabelecem limites. O limite gera uma dose de frustração, e é importante aprender a conviver com esse sentimento desde cedo. Além disso, a rotina vai ganhando complexidade ao longo do desenvolvimento do indivíduo, ensinando-o a agir em determinadas situações.

O estabelecimento de rotinas é um dos aspectos fundamentais para dar segurança à criança. É assim também que ela desenvolve habilidades e aprende a lidar com as solicitações do ambiente.





22 janeiro, 2019

A Aprendizagem Humana através de Piaget

Os trabalhos produzidos pelo renomado pesquisador suíço servem como base para explicar muitos elementos da aprendizagem humana.
Resultado de imagem para teoria de piaget e o desenvolvimento moralJean Piaget dedicou boa parte da sua vida a estudar como o conhecimento se dá no indivíduo desde o seu nascimento.
Também como ele evolui ao longo dos anos e quais saberes são aprimorados com o passar do tempo.
Conceitos como assimilação e acomodação, além de pensamentos mais complexos, como os estágios do desenvolvimento humano e as diferentes fases do amadurecimento da moral, são alguns pontos chave para entender as suas contribuições.
Esse seria um bom resumo da teoria de Piaget, mas há muito mais a saber sobre ela.
Pronto para entrar no mundo de Piaget e descobrir tudo sobre a evolução intelectual dos seres humanos?
Então, relaxe aí na poltrona e desfrute dessa leitura.

O que é a Teoria de Piaget

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Antes de mais nada, é importante fazer um breve resumo da Teoria de Piaget para que você possa se situar e não fique perdido quando entrarmos em conceitos mais complexos.
O pesquisador suíço sempre acreditou que o principal objetivo da inteligência é ajudar as pessoas em sua ambientação ao meio em que vivem.
As formas de adaptação têm a ver com atitudes próprias do ser humano, como o surgimento de hábitos e reflexos.
De acordo com os seus conceitos, o desenvolvimento cognitivo do homem tem a ver com o acompanhamento de respostas mais elaboradas ao ambiente.
A partir daí, o ser humano começa a criar insights, ter sacadas para entender e se adaptar ao seu novo universo.
Ou seja, com o passar do tempo, com o conhecimento adquirido e com a maturidade se instaurando, começam a surgir o que o autor chama de manifestações diferenciadas – aquelas que fogem do senso comum, que são próprias e únicas do indivíduo que as praticou.
Usando como método de pesquisa a observação e também o raciocínio lógico, Piaget foi além e começou a estudar como o conhecimento se desenvolve, desde os sinais mais primitivos até os mais sofisticados.
O autor defende que o crescimento intelectual acontece em partes que evoluem pela equilibração, como chama o autor.
Na prática, trata-se da busca da criança pelo equilíbrio entre o que ela descobre em seu habitat e a sua própria capacidade cognitiva.
Assim, as estruturas mentais, os esquemas e o modo do jovem pensar servem para que ele, desde pequeno, encare e se molde às dificuldades que aparecerem.
Resumo feito, agora você já está pronto para dar o próximo passo e conhecer mais a fundo os conceitos principais que guiam a teoria do pesquisador suíço.

O que é Assimilação e Acomodação?

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Dois elementos chave para entender a aprendizagem humana em Piaget são as definições de assimilação e acomodação.
As duas funcionam como ferramentas do conhecimento.
Em outras palavras, elas são engrenagens responsáveis por organizar, de maneira progressiva, os saberes humanos.
Uma estratégia que o pesquisador utiliza para explicar processos complicados, como a troca de informação que as pessoas fazem com o ambiente – o que pode ser chamado de adaptação -, é se utilizar de termos próprios da biologia.
Como exemplo podemos citar a expressão invariantes funcionais.
Os mecanismos com essa alcunha, que ajudam a estabelecer a interação adaptativa do homem e meio, nada mais são do que a assimilação e a adaptação.
Veja, agora, resumidamente o que significam esses dois conceitos.

Assimilação

Serve para designar um processo no qual uma criança adquire nova informação, que até então não possuía.
Um brinquedo diferente ou um desenho animado recém apresentado são experiências que ela tenta acrescentar ao seu cérebro.
Ou seja, uma criança está sempre disposta a aprender mais e armazenar informações diferentes das que possui.
Um exemplo prático para você entender melhor é quando ela está aprendendo a reconhecer as coisas.
Até o momento, acha que todos os objetos que existem são berços.
Podemos dizer que o pequeno tem em sua estrutura cognitiva um esquema de berço.
Quando é apresentado a essa criança outro objeto que ofereça alguma semelhança, como uma mesa, ela a terá também como berço (grande, quatro pernas, também usada como apoio para trocar sua fralda).
Aqui, há um claro caso de assimilação.
As proximidades entre o berço e a mesa fazem com que os dois sejam facilmente confundíveis.
Isso ocorre por conta da proximidade dos estímulos e de não existir quase nenhuma variedade de esquemas reunidos pela criança até o presente momento.

Acomodação

Berço e mesa só serão diferenciados a partir do processo de acomodação.
Para que isso aconteça, no entanto, será necessária a participação direta do adulto.
Cabe a ele corrigir o seu filho quando apontar a mesa e falar berço.
A partir dessa intervenção, deixando claro que o objeto em questão é outro, a criança vai acomodar essa informação e criar um novo esquema.
Agora, ela tem uma definição de berço e outra de mesa.
Na prática, a acomodação é determinada a partir do momento em que a criança não consegue registrar uma nova informação, pois não existe uma estrutura cognitiva que se pareça com a novidade descoberta.
Nessa situação, é preciso criar um novo esquema ou mudar algum que já exista em seu repertório.
Com a acomodação, é possível tentar assimilar o estímulo uma vez mais e, com a mudança na estrutura cognitiva, o novo conhecimento é prontamente assimilado.

Estágios de Desenvolvimento e Aprendizagem Humana Segundo a Teoria de Piaget

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A assimilação e a acomodação são as principais responsáveis pelas alterações do desenvolvimento cognitivo.
Apesar desse processo se dar durante toda a infância, existem momentos em que essa adaptação acontece de forma distinta.
Coincidentemente ou não, esses desequilíbrios se dão de forma diferente conforme a idade em que os pequenos estão.
Por isso, Piaget dividiu o aprimoramento da aprendizagem em quatro estágios da vida de uma criança.
Vamos a eles.

Sensório-motor (0 aos 2 anos)

Período no qual o criança não tem nenhuma autonomia e onde ainda não são traçados planos.
Ela está presa na atividade do agora. Sugar o peito da mãe, morder e soltar brinquedos são suas principais ações.
O máximo que um bebê nessa idade consegue fazer é usar a chamada pré-lógica, que é ordenar objetos do maior para o menor, colocar uns sobre os outros ou ainda encaixar bases iguais em orifícios de mesmo desenho.
As primeiras noções do eu começam a ser construídas.
Aqui, já é possível diferenciar sua existência física a parte do universo que o rodeia.
Um bebê de cinco meses brinca com um objeto que estiver à sua frente.
Agora, se a peça for escondida, ele já vai agir como se o utensílio nunca tivesse sequer existido.
É diferente de uma criança de oito, nove meses, que já consegue notar que o objeto sumiu e começa a brincar de esconde-esconde com ele.
Cada novo encontro representa uma felicidade imensa.
Importante dizer que alguns pontos foram mudando desde que a Teoria de Piaget foi criada.
Muitas pessoas tendem a achar que os bebês de hoje são mais inteligentes que os de alguns anos atrás.
Um dos motivos que levam a essa conclusão é o quarto dos pequenos.
Há alguns anos, acreditava-se que para uma criança absorver tudo que aprendeu no dia, era preciso um cômodo escuro e extremamente silencioso.
Com o passar do tempo, foi se notando que paredes pintadas em cores mais quentes e músicas no ambiente podem ser muito mais estimulante para os bebês.

Pré-operatório (2 aos 7 anos)

O período sensório-motor vai ficando um pouco de lado e o imediatismo começa a dar lugar à função simbólica, que é a necessidade do pequeno se adequar ao meio em que vive.
O pré-operatório é marcado pelo início da linguagem oral, que é quando a criança começa a externar em palavras aquilo que assimilou e acomodou no passado.
É uma fase em que o ego fala mais alto.
Tudo gira em torno do seu umbigo.
Se alguém pergunta qual é o bebê mais lindo do mundo, a resposta certamente será: “eu”.
O animismo também é algo marcante.
Sentimentos pessoais são transmitidos para objetos inanimados e animais.
Você vai ouvir do seu filho: “cadeira boba, machucou o meu dedinho” ou “cachorro mau, latiu forte para mim”.
Até essa faixa etária, as crianças são incapazes de entender que trocar um objeto de lugar ou a sua forma não vai alterá-lo para sempre.
O exemplo clássico disso é o da massinha de modelar.
Duas massas podem ser exatamente iguais, mas se você a achatar um pouco, o pequeno vai jurar de pés juntos que essa é mais leve que aquela outra, que não foi mexida.

Operações concretas (7 aos 12 anos)

A criança deixa um pouco de se achar o centro do universo e começa a desenvolver um conhecimento que tem mais a ver com as outras pessoas mais velhas.
Para usar outro exemplo que não o da massinha de modelar, ela consegue compreender que dez peças de dominó colocadas cinco em cima e cinco embaixo é igual a todas elas enfileiradas, exceto pela sua disposição.
Elas continuam sendo uma dezena de retângulos pontilhados.
Ou seja, além da ideia desses objetos concretos, agora é possível fazer operações mentais com eles.
Por outro lado, a percepção em situações que não são palpáveis ainda está confusa.
As primeiras noções de tolerância também são sentidas nessa fase.
Com o egocentrismo de lado, é possível ver que existem opiniões, emoções e carências diferentes das suas.

Operações formais (12 anos em diante)

Etapa onde o desenvolvimento da inteligência dá o maior salto.
É quando o adolescente começa a realizar operações mentais com abstrações e não somente com o concreto.
Os hormônios também começam a agir e não apenas no corpo as mudanças passam a aparecer.
O comportamento também é afetado: sentimentos como revolta, incerteza e idealismos como “eu vou mudar o mundo” são clichês, mas reais para eles.
Problemas matemáticos mais complexos também começam a ser resolvidos.
Isso porque a lógica já está bastante aguçada.
Talvez a forma mais fácil de diferenciar a fase das operações concretas das formais seja através de combinações aritméticas.
Um exemplo usado por Piaget é o número de sequências que se pode fazer com os elementos ABCD.
Enquanto um adolescente no período formal vai procurar estabelecer a lógica para elucidar o desafio – mudar primeiro a última letra, depois a penúltima -, o jovem na fase concreta provavelmente vai estabelecer uma ordem aleatória, sem uma metodologia sistêmica.
Embora o Modelo de Desenvolvimento de Aprendizagem de Piaget seja muito completo e fiel à realidade, nunca é demais ressaltar que ele pode variar conforme a idade e de criança para criança.
É como aquele aluno adiantado da turma, que mesmo sendo o mais novo da galera, acompanha as lições tão bem quanto os outros.

Teoria de Piaget e o Desenvolvimento da Moral

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O desenvolvimento da aprendizagem, da cognição e da moral são muito bem amarradas entre si, segundo a teoria de Piaget.
Para abrirmos essa última parte, é importante começar pontuando que o pesquisador defende que crianças entre cinco e dez anos de idade tomam sua decisões éticas a partir do que uma autoridade acredita que é certo.
As regras de professores e responsáveis não mudam e os pequenos as seguem por receio de serem castigados.
Depois desse primeiro momento, os jovens passam a ter um poder de decisão um pouco maior em relação ao que acreditam ser certo e errado.
O autor suíço divide esse período – da infância até o início da adolescência – em três fases.
A seguir, conheça um pouquinho mais de cada uma delas.

Anomia

Etapa que vai até, mais ou menos, os cinco anos da criança.
Nessa fase, normalmente não existe moral.
As normas de conduta são guiadas pelas vontades mais elementares.
A obediência de uma regra se dá pelo hábito e não pela distinção do que é correto ou não.
Por exemplo, um bebê que está com a fralda suja, não vai parar de chorar até que ela seja trocada.

Heteronomia

A fase seguinte, que costuma ir até os dez anos de idade, já identifica um outro tipo de comportamento.
Aqui, o que é certo está correto e ponto final, não existe margem para interpretação.
Do mesmo modo, o errado, por mais que seja por um causa nobre, continua sendo incorreto.
O fato de uma criança não fazer o dever de casa por cuidar do irmãozinho que estava doente é tão grave quanto ele não realizar os temas por pura preguiça.

Autonomia

Depois dos dez anos, começa a última fase do desenvolvimento da moral.
A partir do início da adolescência, o respeito às normas de conduta é feito através de acordos entre responsáveis e jovens.
Faltar aula nunca é bom, mas a ausência por motivo de saúde é bem diferente de não responder à chamada para ir ao shopping, em uma matinê, ver a estreia de um filme no cinema.
Cabe aos pais e aos educadores conduzir esse desenvolvimento moral das crianças em todas as fases, até atingir sua autonomia.
É importante ressaltar também que, apesar dessas etapas mostrarem um comportamento padrão, há sempre particularidades a serem tratadas com as diferentes faixas etárias.

Teoria de Piaget e as Consequências na Área Pedagógica

Os ensinamentos da teoria de Piaget saíram dos livros e podem ser vistos na prática, dentro das salas de aula.
Seu legado e sua contribuição na pedagogia são inestimáveis.
Talvez a principal delas seja a de respeitar as particularidades de cada fase do desenvolvimento e estimular as atividades naturais dos alunos.
Um ensino mais desafiador, que envolva a reflexão e a descoberta de novos conteúdos por parte dos alunos, assim ampliando seus esquemas mentais, também é uma herança deixada pelo suíço.
Essa metodologia pode levar os estudantes a acionar seus aprendizados cognitivos e, assim, desenvolver uma série de ações que vão desde a localização no tempo e espaço, passando pela proposição e comprovação de hipóteses até a justificativa por escolhas realizadas.
Elementos como interação social e linguagem também passaram a ter um espaço vital dentro das salas de aula.
A troca de ideias e a cooperação por meio de trabalhos em grupo e debates são enriquecedores para o ensino.
A teoria de Piaget sempre defendeu que o convívio coletivo favorece a aprendizagem, pois as crianças podem comparar pontos de vista e ver que há diferentes interpretações para situações iguais, dependendo da ótica de cada um.
Esse vai e vem de informações favorece o pensamento reverso, a reciprocidade e a mutualidade no tratamento recíproco.
Em outras palavras, contribui para a passagem da heteronomia para a autonomia.

Conclusão

Como vimos neste artigo, a Teoria de Piaget, de mais de meio século, tem aplicações bastante práticas até hoje.
Não por acaso, suas descobertas impactaram a educação mundial de forma definitiva.
Sempre com o objetivo de auxiliar a criança a desenvolver suas capacidades operativas de pensamento, as conclusões dos estudos do pesquisador fizeram com que se entendesse mais a fundo a aprendizagem humana.
Um universo novo se abriu, onde ocupar espaço no HD da máquina e depois deixar essas informações acumulando pó não fazia sentido.
Era preciso, de fato, adquirir conhecimentos novos, que permitissem à criança raciocinar por ela própria – e não um copia e cola automático, que não gera reflexão -, com pensamentos coerentes, críticos e criativos.

14 janeiro, 2019

Disciplinas Que Ajudam A Criar Um Ser Humano Melhor

"Formar indivíduos críticos e aumentar o poder de reflexão sobre a própria realidade". De acordo com professores de História e Geografia estes são alguns dos benefícios do estudo destas duas disciplinas.
A Revista Nova Escola apresenta um artigo que nos chama a atenção no que se diz respeito às disciplinas de História e Geografia nos primeiros anos. Sharon Santos, especialista do Time de Autores de História, afirma que muitos questionam o estudo dessas disciplinas nos primeiros anos, e nos diz:

"Todo mundo diz: ah, mas tem que estudar História mesmo lá no Ensino Fundamental 1? Tem (tem que) se colocar no mundo, perceber o outro, entender que o outro, mesmo convivendo no mesmo espaço que você, ele tem outra vivência, outra experiência, outra visão. E que estas visões se complementam em um projeto maior."

Leia o artigo na íntegra, através do link:

https://novaescola.org.br/conteudo/13492/por-que-historia-e-geografia-ajudam-a-criar-um-ser-humano-melhor




15 maio, 2017

JEAN PIAGET: o biólogo que colocou a Aprendizagem no microscópio


Jean Piaget (1896-1980) foi o nome mais influente no campo da educação durante a segunda metade do século 20, a ponto de quase se tornar sinônimo de pedagogia. Não existe, entretanto, um método Piaget, como ele próprio gostava de frisar. Ele nunca atuou como pedagogo. Antes de mais nada, Piaget foi biólogo e dedicou a vida a submeter à observação científica rigorosa o processo de aquisição de conhecimento pelo ser humano, particularmente a criança. 

Do estudo das concepções infantis de tempo, espaço, causalidade física, movimento e velocidade, Piaget criou um campo de investigação que denominou epistemologia genética - isto é, uma teoria do conhecimento centrada no desenvolvimento natural da criança. Segundo ele, o pensamento infantil passa por quatro estágios, desde o nascimento até o início da adolescência, quando a capacidade plena de raciocínio é atingida.

"A grande contribuição de Piaget foi estudar o raciocínio lógico-matemático, que é fundamental na escola mas não pode ser ensinado, dependendo de uma estrutura de conhecimento da criança", diz Lino de Macedo, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. 

As descobertas de Piaget tiveram grande impacto na pedagogia, mas, de certa forma, demonstraram que a transmissão de conhecimentos é uma possibilidade limitada. Por um lado, não se pode fazer uma criança aprender o que ela ainda não tem condições de absorver. Por outro, mesmo tendo essas condições, não vai se interessar a não ser por conteúdos que lhe façam falta em termos cognitivos. 

Isso porque, para o cientista suíço, o conhecimento se dá por descobertas que a própria criança faz - um mecanismo que outros pensadores antes dele já haviam intuído, mas que ele submeteu à comprovação na prática. Vem de Piaget a idéia de que o aprendizado é construído pelo aluno e é sua teoria que inaugura a corrente construtivista. 

Educar, para Piaget, é "provocar a atividade" - isto é, estimular a procura do conhecimento. "O professor não deve pensar no que a criança é, mas no que ela pode se tornar", diz Lino de Macedo.


Assimilação e acomodação
Com Piaget, ficou claro que as crianças não raciocinam como os adultos e apenas gradualmente se inserem nas regras, valores e símbolos da maturidade psicológica. Essa inserção se dá mediante dois mecanismos: assimilação e acomodação.

O primeiro consiste em incorporar objetos do mundo exterior a esquemas mentais preexistentes. Por exemplo: a criança que tem a ideia mental de uma ave como animal voador, com penas e asas, ao observar um avestruz vai tentar assimilá-lo a um esquema que não corresponde totalmente ao conhecido. Já a acomodação se refere a modificações dos sistemas de assimilação por influência do mundo externo. Assim, depois de aprender que um avestruz não voa, a criança vai adaptar seu conceito "geral" de ave para incluir as que não voam. 

Estágios de desenvolvimento

Um conceito essencial da epistemologia genética é o egocentrismo, que explica o caráter mágico e pré-lógico do raciocínio infantil. A maturação do pensamento rumo ao domínio da lógica consiste num abandono gradual do egocentrismo. Com isso se adquire a noção de responsabilidade individual, indispensável para a autonomia moral da criança. 

Segundo Piaget, há quatro estágios básicos do desenvolvimento cognitivo. O primeiro é o estágio sensório-motor, que vai até os 2 anos. Nessa fase, as crianças adquirem a capacidade de administrar seus reflexos básicos para que gerem ações prazerosas ou vantajosas. É um período anterior à linguagem, no qual o bebê desenvolve a percepção de si mesmo e dos objetos a sua volta. 

O estágio pré-operacional vai dos 2 aos 7 anos e se caracteriza pelo surgimento da capacidade de dominar a linguagem e a representação do mundo por meio de símbolos. A criança continua egocêntrica e ainda não é capaz, moralmente, de se colocar no lugar de outra pessoa. 

O estágio das operações concretas, dos 7 aos 11 ou 12 anos, tem como marca a aquisição da noção de reversibilidade das ações. Surge a lógica nos processos mentais e a 

habilidade de discriminar os objetos por similaridades e diferenças. A criança já pode dominar conceitos de tempo e número. 

Por volta dos 12 anos começa o estágio das operações formais. Essa fase marca a entrada na idade adulta, em termos cognitivos. O adolescente passa a ter o domínio do pensamento lógico e dedutivo, o que o habilita à experimentação mental. Isso implica, entre outras coisas, relacionar conceitos abstratos e raciocinar sobre hipóteses.

Ajudando o desenvolvimento do aluno
Brincadeira de casinha: estímulo aos alunos na idade da representação. Foto: Masao Goto Filho
Brincadeira de casinha: estímulo aos alunos  
na idade da representação.
A obra de Piaget leva à conclusão de que o trabalho de educar crianças não se refere tanto à transmissão de conteúdos quanto a favorecer a atividade mental do aluno. Conhecer sua obra, portanto, pode ajudar o professor a tornar seu trabalho mais eficiente. Algumas escolas planejam as suas atividades de acordo com os estágios do desenvolvimento cognitivo. Nas classes de Educação Infantil com crianças entre 2 e 3 anos, por exemplo, não é difícil perceber que elas estão em plena descoberta da representação. Começam a brincar de ser outra pessoa, com imitação das atividades vistas em casa e dos personagens das histórias. A escola fará bem em dar vazão a isso promovendo uma ampliação do repertório de referências. Mas é importante lembrar que os modelos teóricos são sempre parciais e que, no caso de Piaget em particular, não existem receitas para a sala de aula.

Biografia
Jean Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896. Aos 10 anos publicou seu primeiro artigo científico, sobre um pardal albino. Desde cedo interessado em filosofia, religião e ciência, formou-se em biologia na universidade de Neuchâtel e, aos 23 anos, mudou-se para Zurique, onde começou a trabalhar com o estudo do raciocínio da criança sob a ótica da psicologia experimental. Em 1924, publicou o primeiro de mais de 50 livros, A Linguagem e o Pensamento na Criança. Antes do fim da década de 1930, já havia ocupado cargos importantes nas principais universidades suíças, além da diretoria do Instituto Jean-Jacques Rousseau, ao lado de seu mestre, Édouard Claparède (1873-1940). Foi também nesse período que acompanhou a infância dos três filhos, uma das grandes fontes do trabalho de observação do que chamou de "ajustamento progressivo do saber". Até o fim da vida, recebeu títulos honorários de algumas das principais universidades européias e norteamericanas. Morreu em 1980 em Genebra, Suíça.

Para pensar 
Os críticos de Piaget costumam dizer que ele deu importância excessiva aos processos individuais e internos de aquisição do aprendizado. Os que afirmam isso em geral contrapõem a obra piagetiana à do pensador bielo-russo Lev Vygotsky (1896-1934). Para ele, como para Piaget, o aprendizado se dá por interação entre estruturas internas e contextos externos. A diferença é que, segundo Vygotsky, esse aprendizado depende fundamentalmente da influência ativa do meio social, que Piaget tendia a considerar apenas uma "interferência" na construção do conhecimento. "É preciso lembrar que Piaget queria abordar o conhecimento do ponto de vista de qualquer criança", diz Lino de Macedo em defesa do cientista suíço. Pela sua experiência em sala de aula, que peso o meio social tem nos processos propriamente cognitivos das crianças? Como você pode influir nisso?


07 novembro, 2016

A Importância do Reforço Escolar

Para muitos especialistas, é um fato que um professor de reforço escolar não deverá ser visto como algo tão ou mais importante do que o professor de sala de aula, já que ninguém pode substituir este último dentro do processo de aprendizagem. No entanto, a maior parte dos especialistas acaba por concluir que o mais adequado a ser feito é enxergar o professor de reforço escolar como uma força auxiliar, que entrega uma ajuda importante para a formação e para o aprendizado da criança. Com a utilização do reforço escolar, uma criança passa a ter acesso a mais horas de aprendizado e de estudo para as matérias que lhe trazem mais dificuldades e mais problemas. Para uma criança que faz uso do reforço escolar, uma das melhores coisas de todas é o acesso a uma outra forma de linguagem, diferenciada e mais facilitadora do que a do seu professor de sala de aula habitual. Deste modo, ela passa a visualizar os conteúdos da matéria problemática de modo completamente diferente e muito mais abrangente, com toques e dicas que normalmente o professor de sala de aula não consegue tempo para mostrar. Uma criança que apresenta dificuldades de aprendizagem durante as aulas regulares, ao ter acesso a uma série de aulas de reforço escolar, passa a ter maiores chances de ter uma melhor formação, muito mais completa. Isto pode ser um ponto essencial e determinante para que o futuro desta criança seja completamente diferente do que seria se ela apenas tivesse tido as aulas regulares que simplesmente não eram eficazes para seu aprendizado. E tendo contato com outro professor, ela passa a ter melhores condições de lidar com novidades, já que tem contato com outra pessoa, completamente diferente.

24 agosto, 2016

Dificuldades de Aprendizagem


Muitas vezes, no decorrer do ensino, nos deparamos com problemas que deixam os alunos paralisados diante do processo de aprendizagem, assim são rotulados pela própria família, professores e colegas.
É importante que todos os envolvidos no processo educativo estejam atentos a essas dificuldades, observando se são momentâneas ou se persistem há algum tempo.
As dificuldades podem advir de fatores orgânicos ou mesmo emocionais e é importante que sejam descobertas a fim de auxiliar o desenvolvimento do processo educativo, percebendo se estão associadas à preguiça, cansaço, sono, tristeza, agitação, desordem, dentre outros, considerados fatores que também desmotivam o aprendizado.
A dificuldade mais conhecida e que vem tendo grande repercussão na atualidade é a dislexia, porém, é necessário estarmos atentos a outros sérios problemas: disgrafia, discalculia, dislalia, disortografia e o TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade).

- Dislexia: é a dificuldade que aparece na leitura, impedindo o aluno de ser fluente, pois faz trocas ou omissões de letras, inverte sílabas, apresenta leitura lenta, dá pulos de linhas ao ler um texto, etc. Estudiosos afirmam que sua causa vem de fatores genéticos, mas nada foi comprovado pela medicina.
- Disgrafia: normalmente vem associada à dislexia, porque se o aluno faz trocas e inversões de letras, consequentemente encontra dificuldade na escrita. Além disso, está associada a letras mal traçadas e ilegíveis, letras muito próximas e desorganização ao produzir um texto.
- Discalculia: é a dificuldade para cálculos e números, de um modo geral os portadores não identificam os sinais das quatro operações e não sabem usá-los, não entendem enunciados de problemas, não conseguem quantificar ou fazer comparações, não entendem sequências lógicas. Esse problema é um dos mais sérios, porém ainda pouco conhecido.
- Dislalia: é a dificuldade na emissão da fala, apresenta pronúncia inadequada das palavras, com trocas de fonemas e sons errados, tornando-as confusas. Manifesta-se mais em pessoas com problemas no palato, flacidez na língua ou lábio leporino.
- Disortografia: é a dificuldade na linguagem escrita e também pode aparecer como consequência da dislexia. Suas principais características são: troca de grafemas, desmotivação para escrever, aglutinação ou separação indevida das palavras, falta de percepção e compreensão dos sinais de pontuação e acentuação.
- TDAH: O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade é um problema de ordem neurológica, que traz consigo sinais evidentes de inquietude, desatenção, falta de concentração e impulsividade. Hoje em dia é muito comum vermos crianças e adolescentes sendo rotulados como DDA (Distúrbio de Déficit de Atenção), porque apresentam alguma agitação, nervosismo e inquietação, fatores que podem advir de causas emocionais. É importante que esse diagnóstico seja feito por um médico e outros profissionais capacitados.
Professores podem ser os mais importantes no processo de identificação e descoberta desses problemas, porém não possuem formação específica para fazer tais diagnósticos, que devem ser feitos por médicos, psicólogos e psicopedagogos. O papel do professor se restringe em observar o aluno e auxiliar o seu processo de aprendizagem, tornando as aulas mais motivadas e dinâmicas, não rotulando o aluno, mas dando-lhe a oportunidade de descobrir suas potencialidades.

24 abril, 2015


Henri Wallon



Frases de Henri Wallon: 

"A criança responde às impressões que as coisas lhe causam com gestos dirigidos a elas" 

"O indivíduo é social não como resultado de circunstâncias externas, mas em virtude de uma necessidade interna" 


Henri Paul Hyacinthe Wallon nasceu em Paris, França, em 1879. Graduou-se em medicina e psicologia. Fez também filosofia. Atuou como médico na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), ajudando a cuidar de pessoas com distúrbios psiquiátricos. Em 1925, criou um laboratório de psicologia biológica da criança. Quatro anos mais tarde, tornou-se professor da Universidade Sorbonne e vice-presidente do Grupo Francês de Educação Nova - instituição que ajudou a revolucionar o sistema de ensino daquele país e da qual foi presidente de 1946 até morrer, também em Paris, em 1962. Ao longo de toda a vida, dedicou-se a conhecer a infância e os caminhos da inteligência nas crianças. 
Militante de esquerda, participou das forças de resistência contra 
Adolf Hitler e foi perseguido pela Gestapo (a polícia política nazista) durante a Segunda Guerra (1939-1945). Em 1947, propôs mudanças estruturais no sistema educacional francês. Coordenou o projeto Reforma do Ensino, conhecido como Langevin-Wallon - conjunto de propostas equivalente à nossa Lei de Diretrizes e Bases. Nele, por exemplo, está escrito que nenhum aluno deve ser reprovado numa avaliação escolar. Em 1948, lançou a revista Enfance, que serviria de plataforma de novas idéias no mundo da educação - e que rapidamente se transformou numa espécie de bíblia para pesquisadores e professores. 

Falar que a escola deve proporcionar formação integral (intelectual, afetiva e social) às crianças é comum hoje em dia. No início do século passado, porém, essa idéia foi uma verdadeira revolução no ensino. Uma revolução comandada por um médico, psicólogo e filósofo francês chamado Henri Wallon. Sua teoria pedagógica, que diz que o desenvolvimento intelectual envolve muito mais do que um simples cérebro, abalou as convicções numa época em que memória e erudição eram o máximo em termos de construção do conhecimento. 

Wallon foi o primeiro a levar não só o corpo da criança mas também suas emoções para dentro da sala de aula. Fundamentou suas idéias em quatro elementos básicos que se comunicam o tempo todo: a afetividade, o movimento, a inteligência e a formação do eu como pessoa. Militante apaixonado (tanto na política como na educação), dizia que reprovar é sinônimo de expulsar, negar, excluir. Ou seja, "a própria negação do ensino". 

As emoções, para Wallon, têm papel preponderante no desenvolvimento da pessoa. É por meio delas que o aluno exterioriza seus desejos e suas vontades. Em geral são manifestações que expressam um universo importante e perceptível, mas pouco estimulado pelos modelos tradicionais de ensino. (Saiba mais em: Educar para Crescer)

30 janeiro, 2014

O Mal-Estar Docente

"Está distante o tempo em que os professores sentiam-se felizes. Esta afirmação, sintetiza um fenômeno que afeta não apenas os docentes, mas os trabalhadores em geral. Utilizando a metáfora escolhida para dar título a este texto, extraída da obra escrita por Lewis Carrol em 1845, Alice no País das Maravilhas, a cena em que se deparam com um "coelho-relógio" apressado, sempre atrasado, sempre correndo e dizendo "...é tarde, é tarde...". Trata-se da longa jornada de trabalho, geralmente assumida pelos professores para manter as condições mínimas de sobrevivência diante dos baixos salários, e leva-os a trabalhar em várias escolas, em múltiplos turnos, em extensos horários da manhã à noite." (in 'Confissões do Corpo: a configuração e a desconfiguração da condição docente na organização educacional'. Prince, Suzeti S., 2008)

26 março, 2013

A Teoria Básica de Jean Piaget

Desde muito cedo Jean Piaget demonstrou sua capacidade de observação. Aos onze anos percebeu um melro albino em uma praça de sua cidade. A observação deste pássaro gerou seu primeiro trabalho científico. Formado em Biologia interessou-se por pesquisar sobre o desenvolvimento do conhecimento nos seres humanos. As teorias de Jean Piaget, portanto, tentam nos explicar como se desenvolve a inteligência nos seres humanos. Daí o nome dado a sua ciência de Epistemologia Genética, que é entendida como o estudo dos mecanismos do aumento dos conhecimentos.
      Convém esclarecer que as teorias de Piaget têm comprovação em bases científicas. Ou seja, ele não somente descreveu o processo de desenvolvimento da inteligência mas, experimentalmente, comprovou suas teses.
      Resumir a teoria de Jean Piaget não é uma tarefa fácil, pois sua obra tem mais páginas que a Enciclopédia Britânica. Desde que se interessou por desvendar o desenvolvimento da inteligência humana, Piaget trabalhou compulsivamente em seu objetivo, até às vésperas de sua morte, em 1980, aos oitenta e quatro anos, deixando escrito aproximadamente setenta livros e mais de quatrocentos artigos. Repassamos aqui algumas idéias centrais de sua teoria, com a colaboração do “Glossário de Termos”.

      1 - A inteligência para Piaget é o mecanismo de adaptação do organismo a uma situação nova e, como tal, implica a construção contínua de novas estruturas. Esta adaptação refere-se ao mundo exterior, como toda adaptação biológica. Desta forma, os indivíduos se desenvolvem intelectualmente a partir de exercícios e estímulos oferecidos pelo meio que os cercam. O que vale também dizer que a inteligência humana pode ser exercitada, buscando um aperfeiçoamento de potencialidades, que evolui "desde o nível mais primitivo da existência, caracterizado por trocas bioquímicas até o nível das trocas simbólicas" (RAMOZZI-CHIAROTTINO apud CHIABAI, 1990, p. 3).

      2 - Para Piaget o comportamento dos seres vivos não é inato, nem resultado de condicionamentos. Para ele o comportamento é construído numa interação entre o meio e o indivíduo. Esta teoria epistemológica (epistemo = conhecimento; e logia = estudo) é caracterizada como interacionista. A inteligência do indivíduo, como adaptação a situações novas, portanto, está relacionada com a complexidade desta interação do indivíduo com o meio. Em outras palavras, quanto mais complexa for esta interação, mais “inteligente” será o indivíduo. As teorias piagetianas abrem campo de estudo não somente para a psicologia do desenvolvimento, mas também para a sociologia e para a antropologia, além de permitir que os pedagogos tracem uma metodologia baseada em suas descobertas.

      3 - “Não existe estrutura sem gênese, nem gênese sem estrutura” (Piaget). Ou seja, a estrutura de maturação do indivíduo sofre um processo genético e a gênese depende de uma estrutura de maturação. Sua teoria nos mostra que o indivíduo só recebe um determinado conhecimento se estiver preparado para recebê-lo. Ou seja, se puder agir sobre o objeto de conhecimento para inserí-lo num sistema de relações. Não existe um novo conhecimento sem que o organismo tenha já um conhecimento anterior para poder assimilá-lo e transformá-lo. O que implica os dois pólos da atividade inteligente: assimilação e acomodação. É assimilação na medida em que incorpora a seus quadros todo o dado da experiência ou ëstruturação por incorporação da realidade exterior a formas devidas à atividade do sujeito (Piaget, 1982). É acomodação na medida em que a estrutura se modifica em função do meio, de suas variações. A adaptação intelectual constitui-se então em um "equilíbrio progressivo entre um mecanismo assimilador e uma acomodação complementar" (Piaget, 1982). Piaget situa, segundo Dolle, o problema epistemológico, o do conhecimento, ao nível de uma interação entre o sujeito e o objeto. E "essa dialética resolve todos os conflitos nascidos das teorias, associacionistas, empiristas, genéticas sem estrutura, estruturalistas sem gênese, etc. ... e permite seguir fases sucessivas da construção progressiva do conhecimento" (1974, p. 52).

      4 - O desenvolvimento do indivíduo inicia-se no período intra-uterino e vai até aos 15 ou 16 anos. Piaget diz que a embriologia humana evolui também após o nascimento, criando estruturas cada vez mais complexas. A construção da inteligência dá-se portanto em etapas sucessivas, com complexidades crescentes, encadeadas umas às outras. A isto Piaget chamou de “construtivismo sequencial”.

      A seguir os períodos em que se dá este desenvolvimento motor, verbal e mental.

      A. Período Sensório-Motor - do nascimento aos 2 anos, aproximadamente.
      A ausência da função semiótica é a principal característica deste período. A inteligência trabalha através das percepções (simbólico) e das ações (motor) através dos deslocamentos do próprio corpo. É uma inteligência iminentemente prática. Sua linguagem vai da ecolalia (repetição de sílabas) à palavra-frase ("água" para dizer que quer beber água) já que não representa mentalmente o objeto e as ações. Sua conduta social, neste período, é de isolamento e indiferenciação (o mundo é ele).

      B. Período Simbólico - dos 2 anos aos 4 anos, aproximadamente.
      Neste período surge a função semiótica que permite o surgimento da linguagem, do desenho, da imitação, da dramatização, etc.. Podendo criar imagens mentais na ausência do objeto ou da ação é o período da fantasia, do faz de conta, do jogo simbólico. Com a capacidade de formar imagens mentais pode transformar o objeto numa satisfação de seu prazer (uma caixa de fósforo em carrinho, por exemplo). É também o período em que o indivíduo “dá alma” (animismo) aos objetos ("o carro do papai foi 'dormir' na garagem"). A linguagem está a nível de monólogo coletivo, ou seja, todos falam ao mesmo tempo sem que respondam as argumentações dos outros. Duas crianças “conversando” dizem frases que não têm relação com a frase que o outro está dizendo. Sua socialização é vivida de forma isolada, mas dentro do coletivo. Não há liderança e os pares são constantemente trocados.
      Existem outras características do pensamento simbólico que não estão sendo mencionadas aqui, uma vez que a proposta é de sintetizar as idéias de Jean Piaget, como por exemplo o nominalismo (dar nomes às coisas das quais não sabe o nome ainda), superdeterminação (“teimosia”), egocentrismo (tudo é “meu”), etc.

      C. Período Intuitivo - dos 4 anos aos 7 anos, aproximadamente.
      Neste período já existe um desejo de explicação dos fenômenos. É a “idade dos porquês”, pois o indíviduo pergunta o tempo todo. Distingue a fantasia do real, podendo dramatizar a fantasia sem que acredite nela. Seu pensamento continua centrado no seu próprio ponto de vista. Já é capaz de organizar coleções e conjuntos sem no entanto incluir conjuntos menores em conjuntos maiores (rosas no conjunto de flores, por exemplo). Quanto à linguagem não mantém uma conversação longa mas já é capaz de adaptar sua resposta às palavras do companheiro.
      Os Períodos Simbólico e Intuitivo são também comumente apresentados como Período Pré-Operatório.

      D. Período Operatório Concreto - dos 7 anos aos 11 anos, aproximadamente.
      É o período em que o indivíduo consolida as conservações de número, substância, volume e peso. Já é capaz de ordenar elementos por seu tamanho (grandeza), incluindo conjuntos, organizando então o mundo de forma lógica ou operatória. Sua organização social é a de bando, podendo participar de grupos maiores, chefiando e admitindo a chefia. Já podem compreender regras, sendo fiéis a ela, e estabelecer compromissos. A conversação torna-se possível (já é uma linguagem socializada), sem que no entanto possam discutrir diferentes pontos de vista para que cheguem a uma conclusão comum.

      E. Período Operatório Abstrato - dos 11 anos em diante.
      É o ápice do desenvolvimento da inteligência e corresponde ao nível de pensamento hipotético-dedutivo ou lógico-matemático. É quando o indivíduo está apto para calcular uma probabilidade, libertando-se do concreto em proveito de interesses orientados para o futuro. É, finalmente, a “abertura para todos os possíveis”. A partir desta estrutura de pensamento é possível a dialética, que permite que a linguagem se dê a nível de discussão para se chegar a uma conclusão. Sua organização grupal pode estabelecer relações de cooperação e reciprocidade.

      5 - A importância de se definir os períodos de desenvolvimento da inteligência reside no fato de que, em cada um, o indivíduo adquire novos conhecimentos ou estratégias de sobrevivência, de compreensão e interpretação da realidade. A compreensão deste processo é fundamental para que os professores possam também compreender com quem estão trabalhando.
      A obra de Jean Piaget não oferece aos educadores uma didática específica sobre como desenvolver a inteligência do aluno ou da criança. Piaget nos mostra que cada fase de desenvolvimento apresenta características e possibilidades de crescimento da maturação ou de aquisições. O conhecimento destas possibilidades faz com que os professores possam oferecer estímulos adequados a um maior desenvolvimento do indivíduo.
      “Aceitar o ponto de vista de Piaget, portanto, provocará turbulenta revolução no processo escolar (o professor transforma-se numa espécia de ‘técnico do time de futebol’, perdendo seu ar de ator no palco). (...) Quem quiser segui-lo tem de modificar, fundamentalmente, comportamentos consagrados, milenarmente (aliás, é assim que age a ciência e a pedagogia começa a tornar-se uma arte apoiada, estritamente, nas ciências biológicas, psicológicas e sociológicas). Onde houver um professor ‘ensinando’... aí não está havendo uma escola piagetiana!” (Lima, 1980, p. 131).

      O lema “o professor não ensina, ajuda o aluno a aprender”, do Método Psicogenético, criado por Lauro de Oliveira Lima, tem suas bases nestas teorias epistemológicas de Jean Piaget. Existem outras escolas, espalhadas pelo Brasil, que também procuram criar metodologias específicas embasadas nas teorias de Piaget. Estas iniciativas passam tanto pelo campo do ensino particular como pelo público. Alguns governos municipais, inclusive, já tentam adotá-las como preceito político-legal.
      Todavia, ainda se desconhece as teorias de Piaget no Brasil. Pode-se afirmar que ainda é limitado o número daqueles que buscam conhecer melhor a Epistemologia Genética e tentam aplicá-la na sua vida profissional, na sua prática pedagógica. Nem mesmo as Faculdades de Educação, de uma forma geral, preocupam-se em aprofundar estudo nestas teorias. Quando muito oferecem os períodos de desenvolvimento, sem permitir um maior entendimento por parte dos alunos.

José Luiz de Paiva Bello
Vitória, 1995

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