"Os métodos clássicos de tortura escolar como a palmatória e a vara já foram abolidos. Mas poderá haver sofrimento maior para uma criança ou um adolescente que ser forçado a mover-se uma floresta de informações que ele não consegue compreender, e que nenhuma relação parecem ter com sua vida?" (Rubem Alves)
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16 setembro, 2012
19 setembro, 2011
“Lugar de criança é na escola: não ao trabalho infantil”
Minha ex-professora de graduação, Cristiane Gandolfi, enviou-me um artigo para que possamos continuar refletindo sobre a infância. O artigo é ótimo e fiz questão em reproduzí-lo aqui, na íntegra.
“Lugar de criança é na escola: não ao trabalho infantil”
Recentemente li num jornal da região do grande abc um artigo de um deputado problematizando os temas do Trabalho infantil e das políticas de emprego do país. Chamou minha atenção a maneira direta do deputado em reconhecer a falácia de políticas públicas de emprego para jovens e a ineficácia do Estatuto enquanto importante ferramenta que assegura os direitos infanto-juvenis.
O artigo se intitula – No meu tempo era assim – e, nota-se que o distinto deputado não demonstrou nenhum repudio pelo fato de que muitas crianças nas décadas passadas começaram a trabalhar com 12, 13 anos de idade(é fato que muitas iniciaram sua vida de trabalho com menos de 10 anos de idade). Certamente para erradicação do trabalho infantil esse é um dos nossos maiores problemas, pois como dizia o prof. Antonio Carlos Gomes da Costa: no Brasil trabalho infantil não é visto como problema ele é tratado como solução.
Desde 1990 temos uma legislação que afirma Lugar de Criança é na escola: aprendendo a aprender, a conviver, a fazer e a ser, portanto escola é trabalho. Com o Estatuto surge a política pública do PETI(programa de erradicação do trabalho infantil) que tem por finalidade realizar a proteção especial para crianças e adolescentes em situação de pobreza e necessidade de trabalhar. Sabe-se que numa sociedade de consumo, o valor do benefício para suprir todas as necessidades que o mercado aponta é irrisório. Em pesquisas de trabalho de conclusão de curso de Pedagogia da UMESP sobre trabalho infantil e inclusão social na escola foi possível afirmar que muitas crianças trabalham na Economia Informal – nos faróis, feiras livres, terminais de ônibus e trens, lava-rápidos, etc – para complementarem a renda familiar. Elas buscam realizar o direito de saciar sua fome das diversas guloseimas disponíveis no mercado, são bolachas recheadas, doces, chocolates, iogurtes e tantos outros itens que não compõem a cesta básica e que, no entanto, povoam o imaginário da infância pobre de nossa cidade.
Sem discutir o teor calórico e/ou nutricional destes alimentos, vale a pena nos debruçarmos sobre a qualidade da merenda escolar: o que as crianças e adolescentes tem dito sobre os pratos oferecidos pela merenda da escola?
No passado os filhos da pobreza tinham um destino certo: começar a trabalhar desde a tenra idade e na vida adulta ocupar as funções não qualificadas do mundo do trabalho. Ainda naquele contexto, criança não tinha vez, nem voz: pouco era perguntada sobre seus gostos, seu paladar.
Hoje vivemos outro contexto: melhorar a política do P.E.T.I., perseguir a meta da Conferência de Educação para todos com uma forte política de inclusão social destas crianças e adolescentes na escola pública e se apropriar do conteúdo do Estatuto(ECA) é um desejo para que o futuro não reproduza o passado. Escola pública de qualidade com uma merenda apropriada a infância e superação do trabalho infantil é um bom começo para que nossas crianças de camadas populares experimentem o gosto doce da vida, sintam-se respeitadas como gente.
05 outubro, 2009
03 outubro, 2009
A Arte de Educar
por William Lara*
(...)
A tarefa da educação é delicada porque supõe, em princípio, amor, desprendimento, doçura, firmeza, paciência e decisão.
Diversas obras já foram escritas sobre esse assunto. Quantas vezes professores e pais, cheios de entusiasmo e esperança, compram este ou aquele livro com o intuito de resolver um problema específico que os preocupa em relação à atitude de alunos e de suas crianças?
Ao ler... vê-se tão fácil! Os livros contêm, às vezes, infinidades de teorias, fórmulas e até conselhos que parecem mágicos, com diálogos imaginados e reações quase perfeitas dos alunos e das crianças diante da iniciativa dos professores e dos pais. Se fosse apenas isso, na vida diária...
No entanto, a realidade é outra. Quando os professores e os pais tentam colocar em prática alguns desses conceitos que acabam de ler e isso não sai como eles esperavam, pensam: "O que aconteceu? Onde está o erro, se fiz exatamente o que o livro dizia?"
Acontece que "educar é uma ciência e uma arte; uma arte porque não tem regras fixas, ou seja, cada caso é diferente, cada circunstância é única".
Um pequeno texto, uma palavra, um gesto, uma pintura, um desenho ou uma ajuda em uma situação em que não esperávamos pode preencher uma vida, mudar seus horizontes e abrir possibilidades para nós mesmos, pois muitas vezes entender, explicitar ou descrever é um bem, um exercício.
Então...
O que podem fazer vocês, professores e pais, quando se sentem desorientados e aflitos? Às vezes querem se dar por vencidos ou descarregar a responsabilidade em um terceiro (coordenadores, psicólogos, etc.). Mas, no fundo, todos sabem que é sua responsabilidade dar aos alunos e filhos as ferramentas e respostas de que necessitam. São os educadores que devem ensinar-lhes o sentido da vida e capacitá-los para vivê-la.
O objeto da educação não está só no sentido literal do verbo “educar”, mas, sim, no modo como o fazemos, a forma como prosseguimos pensando, o tipo de distinções que apresentamos, a moral e a ética dos critérios em que baseamos o caminho a percorrer.
Educar é como ensinar alguém a andar ou a falar (nada de metafórico existe nessa comparação). Andar verticalmente e falar é a educação mais fundamental do modo de ser quem somos: humanos. Aprender a ler, a fazer contas e a dominar a técnica, o conhecimento científico e o processo de desenvolvimento de mais e mais conhecimentos no âmbito de uma comunidade em que estamos imersos é a mesma coisa que aprender a falar. Todos esses aspectos que enquanto adultos nos envolvem são distinções no âmbito do processo fundamental que nós próprios somos: um erguer e um puxar, um indicar de possibilidades, um mostrar de mundos, um incentivar e ajudar, um responsabilizar, autonomizar e cuidar.
Em resumo, educar, desde os primeiros dias até os últimos, é deixar os outros serem humanos — ensinar, no sentido de educar, é muito mais difícil do que aprender. E por que isso é assim? Não apenas porque quem ensina deve dominar uma maior massa de informações e tê-la sempre pronta a ser utilizada, mas porque ensinar requer algo muito mais difícil, complexo e poderoso: deixar aprender.
Quem verdadeiramente ensina passa realmente pelo aprender. Esse aprender, por sua vez, deixa de ser revelado e tem seu fundamento na liberdade individual.
O que aprendemos quando aprendemos a aprender? O que aprendemos quando somos educados? O que é a educação? Com base em que a educação ganha seu sentido, sua pertinência, sua vitalidade e seu caráter decisivo? A resposta é simples: educar é deixar surgir o homem e suas possibilidades.
Por tudo isso, a educação é essencialmente um apontar de possibilidades, de distinções, de relações e de humanidade. Educar é abrir, é erguer, é questionar, é duvidar e ensinar a duvidar, é ser modesto em saber ajudar. Quem deve então educar quem? A resposta é a mesma que foi dada à pergunta “Quem ajuda quem?”.
Viver é aprender. O tempo muda-nos porque tudo nos ensina. Passando o que passa, aprendemos o que fica. O passado fica da forma como para cada um de nós as coisas ganham seus significados, individualmente, em uma vida que é um permanente ter sido e um constante projetar de possibilidades. Uma chamada pelo nome, uma ajuda quando nada se esperava ou uma idéia tocada pelo entusiasmo, pela imaginação e pela vontade de partilhar, um olhar de cumplicidade, uma conversa sobre o que nunca se consegue ler, mas que sempre nos preocupou, ou simplesmente o brilho de um momento, o vislumbre de uma possibilidade que dá um sentido fundo ao que temos sido podem fazer muitas vezes tudo o que mais pode marcar um caminho e uma forma de estar no mundo.
Poderão questionar-se sobre que temas, assuntos, momentos ou histórias estamos aqui para falar...
A resposta é esta: sobre todos.
Na educação, o essencial não é o assunto ou o conteúdo, mas a perspectiva, o modo e a relação. Ou, antes, o objeto da educação não é um tema, como, por exemplo, a Geografia, a História, a Matemática, a Literatura ou as Artes Plásticas. Aquilo sobre o que a educação recai é um modo de ser, que cuida, que toma conta, que se envolve, deixa-se envolver e deixa ser.
Ouvimos muita coisa sobre educação nos dias atuais. Mas, tanto ontem como hoje, o homem é ele mesmo a educação, o ser que se ergueu, que repara e que cuida. Cuidando e ajudando, chamando e sendo cúmplices dessa chamada para a escolha constante das infinitas possibilidades que cada um de nós tem pela frente, podemos abrir o caminho e verdadeiramente educar e educar-nos.
Uma hora é uma medida, uma bola é um passatempo e um conceito é um instrumento, mas cada um de nós é todo o mundo. São todos os mundos do mundo que a educação tem por tema. Assim, a qualquer momento em qualquer mundo, uma palavra, um gesto ou um olhar pode entrar e não mais sair. Se tivermos sabido ou podido preservar e deixar preservar esses momentos, podemos muito bem tocar não apenas naquilo que no momento estamos fazendo, mas toda uma vida — e isso é verdadeiramente o objeto do educar.
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* William Lara é jornalista, pós-graduado em Jornalismo Científico e editor da revista de educação Páginas Abertas - Paulus Editora.
willylara@aol.com
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